As armadilhas dos empréstimos no Brasil

Pelas estatísticas do Banco Central, a taxa média do crédito pessoal não consignado para pessoas físicas foi de 110,95% ao ano em julho de 2026 — 6,42% ao mês. No rotativo do cartão, 436,15% ao ano; no consignado, 28,43% ao ano. Com taxas nesse patamar, entender o contrato antes de assinar pesa tanto quanto a necessidade do dinheiro.

Este artigo explica como ler o custo real de um empréstimo, quais cláusulas merecem atenção e quais direitos a lei garante — com as contas feitas e as fontes indicadas.

Por que o crédito à pessoa física é caro

A taxa de um empréstimo parte do custo de captação da instituição, que acompanha a Selic (13,75% ao ano em 26/09/2026), e soma o spread: a parcela que cobre inadimplência, despesas administrativas, tributos, compulsórios e a margem da instituição. O Banco Central publica a decomposição desse spread no Relatório de Economia Bancária. Nas modalidades sem garantia, como o crédito pessoal não consignado e o cartão, a inadimplência esperada pesa mais — por isso elas custam muito mais que o consignado ou o crédito com garantia.

Taxa não é custo: o CET

A taxa de juros anunciada não é o custo total. O Custo Efetivo Total (CET) reúne juros, tarifas, tributos (como o IOF), seguros e demais despesas do contrato, expressos como taxa anual. A instituição é obrigada a informar o CET antes da contratação e a entregar a planilha de cálculo (Resolução CMN nº 4.881/2020).

CET = a taxa que iguala o valor liberado ao fluxo de todas as parcelas e despesas do contrato

Cinco pontos de atenção no contrato

1. Seguro prestamista: é opcional

O seguro prestamista quita ou amortiza a dívida em caso de morte, invalidez ou, em alguns produtos, desemprego. Ele pode ser oferecido, mas não é obrigatório (SUSEP), e o consumidor não pode ser obrigado a contratá-lo com a instituição ou com a seguradora indicada por ela (STJ, Tema 972). Condicionar o crédito ao seguro é venda casada, vedada pelo Código de Defesa do Consumidor (art. 39, I). Se ele aparecer na proposta, confira se foi uma escolha sua e quanto ele acrescenta ao CET.

2. Tarifas e despesas

Tarifa de cadastro e outras despesas precisam estar no CET. Compare propostas pelo CET e pelo total pago, não pela taxa anunciada nem só pela parcela.

3. Atraso

Sobre a parcela em atraso incidem, em geral, multa de até 2% (CDC, art. 52, § 1º), juros de mora — que nos contratos bancários podem ser pactuados até 1% ao mês (STJ, Súmula 379) — e os juros remuneratórios previstos no contrato. No cartão de crédito, desde 3 de janeiro de 2024, o total de juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não pode passar do valor original da dívida (Lei nº 14.690/2023, art. 28).

4. Quitação antecipada é direito

O consumidor pode liquidar a dívida antecipadamente, no todo ou em parte, com redução proporcional dos juros e demais acréscimos (CDC, art. 52, § 2º). Peça o saldo devedor atualizado e compare com a soma das parcelas restantes.

5. Refinanciamento

Parcela menor não significa custo menor: alongar o prazo costuma aumentar o total pago, como mostra o exemplo 3.

Três exemplos com contas

Exemplo 1: R$ 10.000 em 12 meses

À taxa média de julho de 2026 (6,42% ao mês), Tabela PRICE, sem tarifas nem seguros.

ParcelaR$ 1.220,39
Total pagoR$ 14.644,64
JurosR$ 4.644,64 — 46,4% do valor recebido, em um ano

Exemplo 2: 20 dias de atraso numa parcela de R$ 2.900

Premissas: multa de 2%, juros de mora de 1% ao mês proporcionais aos dias e juros remuneratórios de 6,42% ao mês sobre o valor em atraso.

MultaR$ 58,00
Juros de moraR$ 19,33
Juros remuneratórios do períodoR$ 122,83
Custo do atrasocerca de R$ 200

Exemplo 3: refinanciar para baixar a parcela

Saldo de R$ 20.000 a 6,42% a.m., 12 parcelas restantesR$ 2.440,77 × 12 = R$ 29.289,29
Refinanciado em 36 meses a 5,50% a.m., com R$ 500 de despesasR$ 1.319,51 × 36 = R$ 47.502,37

A parcela cai quase à metade; o total pago sobe R$ 18.213,08.

Como avaliar um contrato antes de assinar

Crédito, poupança e custo de oportunidade

Um empréstimo a 110% ao ano custa muito mais do que qualquer aplicação conservadora rende. Quando é possível adiar uma compra e juntar o valor, a diferença de custo é grande. Há, por outro lado, situações em que o crédito resolve um problema maior — trocar uma dívida cara por uma mais barata, por exemplo. A decisão é sua; o que ajuda é conhecer o custo total antes de assinar.

Conclusão

O crédito não é, em si, bom ou mau: é caro, e o custo depende de taxa, prazo, tarifas e do que acontece durante o contrato. CET, total pago e as cláusulas de atraso e quitação são o que separa uma decisão informada de uma surpresa.

Fontes e premissas

  • Taxas médias (pessoas físicas, recursos livres, julho de 2026): Banco Central do Brasil, séries SGS 20742 e 25464 (crédito pessoal não consignado: 110,95% a.a.; 6,42% a.m.), 22022 (cartão rotativo: 436,15% a.a.) e 20747 (consignado total: 28,43% a.a.).
  • Meta da Selic: Banco Central do Brasil, série SGS 432 (13,75% a.a. em 26/09/2026).
  • CET: Resolução CMN nº 4.881/2020.
  • Seguro prestamista não é obrigatório: SUSEP, página “Seguro Prestamista” (atualizada em 19/12/2022). STJ, Tema 972 (REsp 1.639.320/SP e 1.639.259/SP, julgados em 17/12/2018).
  • Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990), arts. 39, I, e 52, §§ 1º e 2º. STJ, Súmula 379. Lei nº 14.690/2023, art. 28, e Resolução CMN nº 5.112/2023.
  • Exemplos: contas da POSTULAX (Tabela PRICE) com as premissas declaradas. Simulação educacional; não constitui recomendação financeira, jurídica ou de crédito.

Veja o custo total da dívida

Use o simulador de dívidas da POSTULAX para ver o total pago e quantas vezes você paga o valor original.

Abrir a ferramenta →

Ler o guia da ferramenta · Todos os artigos do blog